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RECITAL MINEIRO - OBRAS DE CARLOS ALBERTO PINTO FONSECA E ARTHUR BOSMANS” – CELSO FARIA




Por sua multiplicidade de sotaques em um país continental, o violão praticamente assume, em cada estado ou região diferente do Brasil, uma identidade própria, recheada de sabores locais. No caso do estado de Minas Gerais, por suas especificidades regionais, a plasticidade do instrumento em absorver e reinventar diversificadas tendências estilísticas e a musicalidade secular de um povo, podemos até pensar que existe um certo.... Violão Mineiro.


A produção musical mineira para violão hoje em dia se apresenta de maneira multifacetada, coexistindo variadas explorações de linguagens, abordagens instrumentais distintas, bem como a inserção do instrumento em diversificados contextos camerísticos e até mesmo sinfônico, mas, nem sempre foi assim. Ainda no início do século XX, época das primeiras investidas na construção de um repertório para o violão no estado, encontramos, predominantemente, obras que estavam ligadas aos gêneros populares vigentes, como o choro, a valsa, a marcha, a serenata e o batuque, por exemplo. Destacamos, como alguns dos nomes mais significativos deste momento: Mozart Bicalho (1902-1986), José Augusto de Freitas (1909-1990), Nelson Piló (1914-1986) e Benedito Chaves (1905-?). Estes tiveram como grande divulgador de suas obras Dilermando Reis (1916-1977), músico que integrou o elenco da Rádio Nacional e que foi o grande nome do violão brasileiro na primeira metade do século XX.


Um importante ponto de articulação na história do instrumento nas Minas Gerais se dá na década de 1960. Nesse momento, podemos observar uma série de fatores que contribuíram para o aparecimento de “novos ares” no ambiente do violão no estado, tais como: surgimento de cursos regulares do instrumento, sua frequência em diversos festivais de música, o aparecimento de violonistas que contavam com uma formação musical mais completa, além do interesse, da escrita instrumental, por compositores não executantes do violão. No Brasil, a composição musical deste período ainda vivia, sob as mais variadas perspectivas, a dicotomia nacionalismo/universalismo, e, com a produção violonística mineira não era diferente. Podemos nos lembrar, deste período, de nomes como Flausino Vale (1894-1954), Dinorá de Carvalho (1905-1980), Arthur Bosmans (1908-1991), José Viera Brandão (1911-2002), José Felipe de Carvalho Torres (1912-?), Edmundo Villani-Côrtes (1930), Rufo Herrera (1933), Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933-2006) e, mais recentemente, Eustáquio Grilo (1948), Lourival Silvestre (1949), Nelson Salomé de Oliveira (1950), Antônio Gilberto Machado de Carvalho (1952), OiliamLanna (1953), Eduardo Campolina (1955), Harry Crowl (1958),Antonio Celso Ribeiro (1962), Sérgio Freire (1962), Rogério Vasconcelos (1962), Andersen Viana (1962), José Orlando Alves (1970), Guilherme Castro (1976), Jônatas Reis (1976) e Ronaldo Cadeu (1977).


Atualmente, encontramos também um grande número de virtuoses violonistas/compositores que são ligados a diversos gêneros e movimentos musicais como o Choro, o Jazz, o Clube da Esquina e a música regional mineira e que se dividem entre o trabalho autoral e a releitura de standards nacionais e internacionais. Alguns dos nomes mais significativos desta vertente são Toninho Horta (1948), Juarez Moreira (1954), Gilvan de Oliveira (1956), Geraldo Viana (1962), Weber Lopes (1963) e Carlos Walter (1979).


Os Sete Estudos Brasileiros de Carlos Alberto Pinto Fonseca e a suíte Brasileiras de Arthur Bosmans, que estão registrados fonograficamente de forma integral pela primeira vez neste álbum, foram as primeiras investidas dos compositores no universo do violão. Estas, que são exemplos de duas das mais auspiciosas obras nacionais e que foram inteiramente compostas em Belo Horizonte/MG ainda na primeira metade da década de 1970, dialogam fortemente com alguns exemplares de reconhecido sucesso na literatura para o instrumento, a saber: os Doze Estudos ea Suíte Popular Brasileira de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), os Estudos Simples do cubano Leo Brouwer (1939) e a Suíte Compostelana do espanhol Federico Mompou (1893-1987).


Os Sete Estudos Brasileiros (Estudo nº 1 - Recitativo, Estudo nº 2 - Andante, moltoespressivo, Estudo nº 3 “Homenagem a Villa-Lobos” - Quasideclamato, Estudo nº 4 - Andantino, Estudo nº 5 - Allegretto, Estudo nº 6 “Batucada” - Allegro moderato, Estudo nº 7 - Andante) foram concluídos em 1972 por Fonseca e editados pela Columbia Music Company (Washington D.C.-Estados Unidos) em 1978 por Carlos Barbosa-Lima, a quem a obra foi dedicada. Este, frequente em Belo Horizonte no início da década de 1970, após uma apresentação no Palácio das Artes conheceu Carlos Alberto Pinto Fonseca e lhe mostrou várias obras, originais e transpostas, para o instrumento. Entusiasmado com o que ouviu, Fonseca lhe prometeu uma série de obras para violão. A produção violonística de Carlos Alberto Pinto Fonseca conta também com uma grande quantidade de peças avulsas que ainda se encontram manuscritas, dentre elas podemos citar: Alma de um povo, Da Janela do Trem, Prece, Prelúdio e Adágio, e Estudo Seresteiro.


A suíte Brasileiras de Arthur Bosmans, que possui cinco movimentos (Ponteio, Modinha, Batucada, Toada, Sorongo “Dança afro brasileira”), foi concluída em1973 e editada pela Metropolis (Antuérpia-Bélgica) no ano seguinte por Victor van Puijenbroeck. Somente o Sorongo foi escrito originalmente para o violão, os quatro primeiros movimentos foram transcritos pelo próprio compositor de obras para piano preexistentes. Para sanar alguma dúvida, sobre as possibilidades expressivas e/ou idiomáticas do instrumento, Bosmans sempre recorria a um grande amigo, o bancário, compositor e violonista diletante, Júlio Borges. Completa a produção violonística de Bosmans a Valsa... da outra esquina, obra escrita em 1988 e que ainda não foi editada, onde o compositor homenageia Francisco Mignone.



Celso Faria (violonista, professor e produtor cultural)



Foto: Foca Lisboa