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Síndrome de Burnout entre médicos



Situação de esgotamento e de redução da taxa de felicidade se intensifica durante a pandemia


André Murad*

Muito tem se falado da síndrome de Burnout, transtorno psíquico presente na Classificação Estatística e Internacional de Doença e Problemas Relacionados à Saúde – CID, comumente desenvolvida em pessoas com vida profissional e pessoal intensas, que às vezes desempenham jornadas duplas. Essa síndrome ocorre devido à repetição de situações de estresse, de ansiedade e de nervosismo, que levam ao limite do desgaste emocional e físico. Com isso, a pessoa se sente sem forças, desmotivada, esgotada, às vezes, chegando à depressão e, em casos mais severos, ao suicídio.

Imaginem, agora, quais são as profissões mais atingidas? Em primeiro lugar estão os profissionais da saúde em geral, principalmente médicos e enfermeiros, seguidos pelos jornalistas. Coincidentemente são as duas áreas à dianteira no enfrentamento à pandemia.

Apesar de os oncologistas não estarem no frontão do tratamento dos pacientes com covid-19, como estão os colegas especialistas em doenças infecciosas, pneumologistas e intensivistas, uma pesquisa recente demonstrou que os níveis de felicidade fora do trabalho para profissionais norte-americanos da área oncológica despencaram devido à pandemia. O esgotamento, no entanto, já era alto antes mesmo do covid-19 e teve pouca alteração.

As análises são do Medscape Oncologist Lifestyle, Happiness & Burnout Report 2021, que avalia toda a área médica. Em março de 2020, a maior parte dos oncologistas (85%) estava um tanto ou muito feliz fora do ambiente de trabalho, percentual semelhante ao dos médicos em geral (82%). Endocrinologistas e especialistas em saúde pública e medicina preventiva foram os mais felizes, enquanto os médicos infectologistas foram os menos felizes. Conforme a pandemia avançou, os níveis de felicidade diminuíram: apenas 61% dos oncologistas relataram estar muito felizes ou um tanto felizes, o que novamente é semelhante aos médicos em geral (58%).

Obviamente, os especialistas em doenças infecciosas (45%), pneumologistas (47%) e intensivistas (49%) ocuparam os lugares mais baixos na escala de felicidade, pois, trabalho e vida pessoal se misturam mais do que nunca em rotinas desgastantes e, até aquela data, sem perspectiva de cenário positivo.

Já a síndrome de Burnout e a depressão foram relatadas por cerca de 40% dos oncologistas: 18% disseram estar exaustos, 8% experimentaram depressão e 14% foram afetados por ambos. Quase três quartos (74%) disseram que o Burnout teve um efeito moderado ou entre forte e severo em suas vidas; e 10% disseram que era tão severo que eles estavam pensando em deixar a medicina. Interessantemente, o COVID-19 não teve muito impacto nas taxas desse transtorno, pois para 85% dos oncologistas o Burnout começou antes da pandemia. Apenas 15% disseram que começou após a pandemia.

Acredito que o aumento da infelicidade e a pouca alteração da taxa de Burnout entre oncologistas se justificam devido a certa redução das atividades clínicas oncológicas (o número de primeiras consultas em que são feitos os diagnósticos caiu em função da quarentena) e ao fato de estarmos de mãos atadas para agir em favor dos nossos pacientes, especialmente daqueles que deixaram de receber diagnóstico precoce. Ou seja, se por um lado tivemos uma carga de trabalho menor, por outro, a questão médica do covid-19 extrapolou os ambientes médicos. Um futuro de casos mais graves de pacientes diagnosticados com câncer em estágio avançado nos assombra.

Entre os participantes da pesquisa, o número crescente de tarefas burocráticas foi relatado por dois terços (67%) dos oncologistas como o maior contribuinte para a síndrome de Burnout, seguido do excesso de horas de trabalho (58%).

Embora sejam consideráveis as diferenças entre os sistemas de saúde norte-americano e brasileiro, exemplifico a jornada dos profissionais da área com meu próprio cotidiano. Entre as inúmeras responsabilidades que desempenho, com muito prazer e carinho - clínica oncológica, pesquisas, gestão de questões administrativas, reuniões e mais reuniões -, minha jornada semanal chega a 45 horas semanais, mais cerca de 5 horas nos fins de semana, que me dedico a estudar e a escrever artigos científicos, contribuições em livros, etc. É necessário tal empenho para conseguir entregar aos pacientes e à sociedade uma contribuição diferenciada. Em outra pesquisa realizada pelo Medscape, mas com médicos brasileiros, 30% dos participantes afirmam ter jornadas acima de 51 horas semanais e 23% que trabalham entre 41 e 50 horas por semana.

A pesquisa com médicos dos EUA apontou também que um terço (34%) dos oncologistas achava que o aumento da informatização contribui para o esgotamento. De fato, a tecnologia, que muito ajuda no nosso trabalho, pode ser um gatilho de desgastes: o envio de mensagens por WhatsApp, por exemplo, não respeita dia, lugar, nem horário de descanso.

Conforme demonstra a pesquisa, a maioria dos oncologistas (85%) disse que passa de 1 a 10 horas por semana online para trabalhar; 12% relataram ficar entre 11 e 20 horas online; um percentual menor (3%) chega a 30 horas. Essas proporções foram semelhantes à população geral de médicos: 80% relataram passar de 1 a 10 horas no computador para trabalhar.

No Brasil, a síndrome de Burnout é também um ponto de atenção. Um levantamento feito pelo Medscape, entre 9 de junho e 23 de agosto de 2020, com 2475 médicos, mostrou que 1 em cada 10 participantes pensam em abandonar a profissão por causa das condições de trabalho da saúde brasileira (pública e privada) e do agravamento das dificuldades durante a pandemia.

Os médicos entre 25 e 39 anos de idade, os chamados millennials, são os que mais sofrem com o Burnout (22%) e com a depressão (12%). Entre os profissionais que afirmaram sofrer Burnout, 59% disseram haver agravamento da situação com a pandemia.

Estamos falando da saúde de quem cuida da saúde dos brasileiros. No momento atual estamos todos reativos, ‘apagando incêndio' e tentando lidar da melhor forma possível com uma pandemia imprevisível. Mas é importante observar essa situação sintomática com mais atenção e repensar as condições de trabalho da classe médica em busca de rotinas mais saudáveis. Seria possível?


*André Murad é oncologista, pós-doutor em genética, professor da UFMG e pesquisador. É diretor-executivo na clínica integrada Personal Oncologia de Precisão e Personalizada e diretor Científico no Grupo Brasileiro de Oncologia de Precisão: GBOP. Exerce a especialidade há 30 anos, e é um estudioso do câncer, de suas causas (carcinogênese), dos fatores genéticos ligados à sua incidência e das medidas para preveni-lo e diagnosticá-lo precocemente.



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