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O GRANDE VINHO DA COLINA



Ao começar a escrever sobre o assunto “Terroir”, alguns leitores pediram que eu aprofundasse mais informações sobre regiões que correspondem ao tema. Há regiões famosas na França, como é o caso de Bordeaux ou Borgonha pelo volume de grandes rótulos, mas há regiões que ainda despertam curiosidade como a região de Hermitage.


E quando o assunto é terroir, Hermitage é uma das denominações de origem que mais se enquadram no tema por suas características.


A palavra francesa “Hermitage” em si quer dizer “ermida” em português, ou seja, o local onde vive um ermitão. E a história começa quando no ano de 1224, um cavaleiro cruzado chamado Gaspard de Stérimberg, retornou ferido e recebeu da Rainha Branca de Castela autorização para refugiar-se numa colina com 300 metros de altitude – a colina de Hermitage. Ele construiu uma pequena capela e uma comunidade ali se formou. Esta comunidade plantou vinhas e produziu vinhos, dando início a criação de ícone.






A vocação vitivinícola da região já era conhecida anteriormente, uma vez que Marcial e Plínio já tinham elogiado a qualidade dos vinhos de Tegna (atual Tain L’ermitage). Imagina-se que o cultivo da vinha na região tenha sido iniciado pelos gregos, cerca de 600 anos antes da chegada do romanos.


O certo é que a qualidade dos vinhos produzidos a partir dos vinhedos da colina de Hermitage, com apenas 132 hectares, tornou-se conhecida, e com admiradores famosos como Thomas Jefferson, que foi o primeiro embaixador norte-americano na França. Ele visitou a região e considerou o vinho como um dos melhores do mundo. Conta-se que comprou 550 garrafas de Hermitage branco e tinto.


O apogeu dos vinhos de Hermitage ocorreu na primeira metade do século XIX, quando chegou a ser o vinho francês mais caro e o preferido da corte russa. Por ser a Syrah uma uva de grande concentração e cor, os vinhos de Hermitage eram freqüentemente usados para aumentar a cor e concentração de grande châteaux de Bordeaux e domaines da Borgonha.

A técnica além de ser importante e benéfica para estes vinhos, aumentava seus preços quando se informava que eles tinham sido mesclados com Hermitages.




No final do século XIX a Phylloxera devastou a região e os Hermitage foram praticamente esquecidos. Seu renascimento se deu a partir da década de 1980, como uma grande amostra da complexidade e qualidade potenciais da uva Syrah, num mundo globalizado pelo boom do consumo do vinho capitaneado pela mesmice dos Cabernet Sauvignon e dos Chardonnays.


Aliás, a fama do vinho tinto é tão grande que muita gente desconhece haver a versão branca. Cerca de 76% dos vinhos são rotulados como Hermitage tintos.

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Os vinhos tintos são elaborados com Syrah, podendo ter, no máximo, 15% de Marsanne ou Roussanne, e produzidos com longa maceração (período em que a parte sólida das uvas permanece em contato com o mosto). Desta forma, cria-se um vinho de cor rubi muito profunda, encorpado. Quando jovem é forte, vigoroso e robusto, com aromas de couro, café e frutas vermelhas. Com grande potencial de envelhecimento, desenvolve ao longo do tempo notas de especiarias, violetas e groselhas, aromas defumados, de frutas escuras, de sous-bois, associados a uma grande intensidade de sabores.




Os vinhos brancos são elaborados com as uvas Marsanne ou Roussanne, e produzidos geralmente com fermentação malolática, processo que reduz a acidez e proporciona maior complexidade ao vinho. Esse também é um vinho de rara suavidade, que pode ser guardado por décadas. Os aromas mais associados são frutas como a avelã, pêssego e damasco.


Mas se estamos falando de terroir, onde está a importância de fatores como o solo e o clima?

A colina de Hermitage que tem três picos crescentes, está voltada para o sul, com insolação privilegiada e que muitos, de forma errônea, consideram homogeneamente constituída de solo granítico.

Na verdade, embora o solo granítico seja a sua base, há uma grande diversidade de solos em que o pedregoso, o calcário, o argiloso e até o solo arenoso combinam-se para criar diferentes terroirs, onde se cultivam vinhedos que produzem vinhos com personalidade própria e única, resultando numa grande complexidade do vinho.


Mais ao alto e a oeste está localizado a parcela Les Bessards, que produz vinhos concentrados e potentes, originados de uvas de solo arenoso granítico, que se contrapõe ao solo mais calcário de Les Beaumes, com vinhos muito frutados, quase doces, mas sem grande intensidade. Em L’Hermite, os solos são muito ricos em ferro e as uvas ali cultivadas dão origem a vinhos extremamente tânicos e poderosos.


Este é um dos grandes segredos do Hermitage: utilizar uvas oriundas do maior número de parcelas possíveis, resultando em vinhos mais complexos e equilibrados, o que explica por que os produtores mais reconhecidos da região, como Gerard Chave, Paul Jaboulet Aîné ou Chapoutier possuem o maior número de parcelas.


Há outro ponto importante a considerar-se que é a predominância da uva Syrah, uma vez que a legislação local permita a adição de até 15% de uvas brancas (Marsanne e Roussane), o que na realidade quase nunca acontece.


Os vinhos tintos são vinificados de maneira tradicional, sem grande controle de temperatura e sem passagem exagerada por madeira nova dando uma certa rusticidade ao produto final, mas que torna o Hermitage um vinho diferenciado e difícil de se imitar.


O Hermitage branco é feito a partir da potente e alcoólica Marsanne e pela aromática e mais delicada Roussanne. Na sua juventude, o vinho mostra seu caráter frutado, com belo corpo e baixa acidez. Com bom potencial de guarda, quando atinge 10 a 15 anos, desenvolve aromas muito complexos, com frutas em compota e frutas secas como nozes e avelãs.


A região produz ainda o “Vin de Paille”, que é um vinho naturalmente doce feito sem adição de álcool, de cor âmbar, suave ou licoroso, obtido principalmente a partir de vinhas velhas de Marsanne. As uvas, colhidas no auge de sua maturação, passam pelo processo de apassimento, sendo desidratadas em esteiras de palha, em temperatura ambiente e ventilação natural, por pelo menos 45 dias, a fim de concentrar compostos, açúcares e sabores.




Entre o Natal e o final de fevereiro, é feita uma pressão lenta e cuidadosa das uvas secas com rendimento de suco muito baixo, verdadeiramente gota a gota (100 kg de uvas dão 18 a 25 litros de vinhos de palha). O mosto rico deve fermentar lentamente. A fermentação cessa naturalmente assim que o mosto atinge 15 a 16% do volume, mantendo 60 a 100 gramas de açúcar não processado.


No final do período de sua produção, os vinhos que possam beneficiar da menção de "vinho de palha" não podem ser colocados no mercado consumidor antes de 1º de junho do segundo ano que segue o da colheita. Esse vinho apresenta aromas de mel, nozes e caramelo, com notas de especiarias, aromas de frutas confitadas como a ameixa ou geléia de laranja e também é um vinho de guarda, com grande longevidade (mais de 50 anos).


Para quem está acostumado com a potência dos vinhos de Bordeaux e a elegância dos vinhos da Borgonha, os Hermitages do Rhône são uma bela surpresa.


Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (baseado em artigos disponíveis na internet).


Matéria de Marcio Oliveira

Para o Jornal @espacohorizonte